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As cinzas de um falso brihante
“Sempre vou viver como camicase. É isso que me faz ficar de pé”.
Na manhã de 19 de janeiro de 1982, o brasileiro receberia a notícia de que seu maior ídolo musical partira, no auge de seus 36 anos.
Em seu apartamento nos Jardins, Elis Regina de Carvalho Costa foi encontrada morta após uma parada cardíaca. O corpo da cantora foi levado ao Teatro Bandeirantes, onde havia realizado seu show de maior sucesso, Falso Brilhante. Lá, milhares de fãs faziam fila na porta do teatro para ver a cantora pela última vez e prestar-lhe uma homenagem ao som da música Está chegando a hora.
Os últimos momentos da vida de Elis Regina foram passados com seus amigos músicos e seu namorado advogado Samuel Mac Dowell, num jantar seguido de uma briga, quando se despediram em clima de rancor.
Com a briga, Elis entrou em depressão e bebeu muito durante toda a noite, sem dormir. Pela manhã, atendeu a um telefonema de seu namorado e começaram a brigar outra vez. Durante a conversa, Elis teria ingerido grande quantidade de cocaína e Campari, até o momento em que seu organismo não aguentou mais.
Percebendo que o telefone ficara mudo, Samuel notou que algo de grave havia acontecido, foi até o apartamento da cantora e derrubou a porta de seu quarto em grande desespero, encontrando-a caída com o telefone fora do gancho.
A família de Elis, querendo preservar a imagem da cantora, negava o laudo de sua morte, que afirmava a ingestão de drogas.
No dia seguinte, milhares de pessoas percorreram as ruas conduzindo o corpo de Elis Regina até o Cemitério do Morumbi, onde foi enterrada ao som de Canção da América.
Nasce uma estrela
“A gente tem de fazer das tripas sentimento”.
No dia 17 de março de 1945 ,nasceu no Bairro dos Navegantes, em Porto Alegre , pobre, estrábica e sob o signo de peixes, Elis Regina de Carvalho Costa.
Ela foi a primeira filha de Romeu Costa e Ercy Carvalho, senhora de prendas domésticas. Aos quatro anos, seu irmão Rogério nasceu , tendo, como apelido, Zéio.
Aos 12 anos de idade, sua mãe e sua avó queriam que Elis fosse à Rádio Farroupilha mostrar seu grande talento: cantar. Levaram-na a um programa para crianças, o Clube do Guri. Em meio a muito nervosismo, Elis teve uma hemorragia nasal, seguida de diarréia. Era tímida e tudo era muito novo.
Elis passou os próximos dois anos como atração principal doprograma, quando recebeu seu primeiro convite para se profissionalizar. Tinha 14 anos e muita facilidade com idiomas, o que lhe permitia apresentar repertório internacional.
Elis continuou a cantar nas rádios locais até seus 15 anos. Foi quando Wilson Rodrigues Poso, da Rádio Gaúcha, ouviu a garota e a levou à Gravadora Continental, no Rio de Janeiro, em 1961, onde gravou seu primeiro LP Viva a Brotolândia.
Uma vida, muitas oportunidades
“Tenho o prazer de me danar e me recompor sozinha. Não preciso de muletas”.
Zéio, seu único irmão, não apoiava sua carreira de cantora. Era obrigado a deixar o treino de futebol para levar Elis aos auditórios da rádio. Certo dia, já cansado dessa obrigação, enfezou-se e disse: “Eu não jogo, você não canta!” e deu um soco na boca de sua irmã.
Não só o irmão, mas também sua escola e, principalmente, sua professora de francês, General Flores da Cunha, não aprovavam seu desempenho artístico. Após reprovar injustamente a aluna de 17 anos, Elis ainda lembrava: “Disse que eu não tinha dignidade para envergar o uniforme da escola. E se eu era assim tão ordinária, minha mãe também não devia ser grande coisa. Aí eu não aguentei e capuff, dei um tapa na megera. Da minha mãe você não fala desse jeito”.
Aos 18 anos, indo a São Paulo, daria início, de fato, a uma das carreiras mais brilhantes da MPB. A cantora encontrou um ambiente musical bem diferente, havia muitos shows no Paramount (atual Teatro Abril), no qual um dia surgiu um concurso, o 1º Festival de Musica Brasileira, onde conseguiu uma formidável vitória com a música Arrastão de Vinícius de Moraes e Edu Lobo, que levaria o primeiro lugar, e ela, o título de melhor intérprete
Como comemoração, foram programadas três noites de espetáculos, nas quais haveria participação dos mais destacados concorrentes. “Então eu cantei uma sequência de músicas com Jair Rodrigues, acompanhamento de Jongo Trio. Os produtores que gravaram todas as apresentações mandaram a fita para a Photogram, sem que eu e Jair soubéssemos de nada”.
Em 1965, Elis foi chamada para apresentar o programa O Fino da Bossa, o primeiro programa musical da televisão que originou três discos de grande sucesso, entre eles, o famoso Dois na Bossa, o primeiro disco brasileiro a vender um milhão de cópias.Esse programa foi muito importante para a carreia de Elis, pois ficou muito conhecido por todo Brasil. Ficou no ar até 1967, quando a cantora se mudou para o Rio de Janeiro por causa de seu casamento com Ronaldo Bôscoli, ocorrido em dezembro de 1967.
Com a agenda lotada de espetáculos, entre o Rio e São Paulo, Elis assinou com a TV Rio um contrato para participar do programa Noites de Gala. Cantou no Beco das Garrafas, uma casa noturna muito conhecida na época, com a direção de Luis Carlos Miéle e Ronaldo Bôscoli, acompanhada pelo grupo Copa Trio. Foi também no Beco das Garrafas que Elis conheceu o coreógrafo americano Lennie Dale, que lhe ensinou a dançar em quanto cantava.
Em 1968, Elis foi para a França representar o Brasil num grande festival, com sua música Upa Neguinho.
Em 1969, a cantora ficou grávida de seu primeiro filho. Aos sete meses de gravidez, estreou no Canecão do Rio de Janeiro, com um show chamado Elis & Miele, no Teatro da Praia, show dirigido por dirigido por Miéle e Bôscoli.
A seguir, Elis venceu a I Bienal do Samba, com a música Lapinha, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro. No ano seguinte nasceu seu filho, João Marcelo, em junho de 1970.
Elis voltou à França para gravar um compacto, em que cantava as músicas Noite dos Mascarados, de Chico Buarque e A noite do meu bem, de Dolores Duran, nas versões em francês de Pierre Barouh.
Em 1969, Elis passou a se apresentar em shows de teatro, assim se afastando da televisão.
Pimentinha
“Meu problema são 10 centímetros a mais, se não, estaria tudo resolvido”.
A personalidade forte da cantora influenciava muito seu modo de cantar. Ela expressava seus sentimentos mais intensos através da música, de acordo com o que estava acontecendo em sua vida pessoal. Quando estava mal, cantava como um demônio enfurecido, já, se estava feliz, cantava alegremente, com generosidade, expressando sua felicidade em cada palavra, e também conseguia colocar, sutilmente, suas opiniões sobre o que ocorria politicamente no Brasil.
Por ter uma personalidade forte, Elis foi apelidada de Pimentinha por Vinícius de Moraes.
Era muito fácil gostar de Elis, pois era muito talentosa, mas, quem tinha contato pessoal com a cantora, sabia que ela não era tão doce quanto parecia e era um tanto temperamental. Suas mudanças de humor eram conhecidas por todos, porém, mesmo assim, ela conseguia respeito entre todos os seus pares musicais.
Os mais importantes compositores brasileiros - como Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Edu Lobo e Vinícius de Moraes - procuravam-na, pois sabiam que a cantora dava vida a suas canções.
Seu jeito de interpretar ofendeu alguns puristas, pois não aceitavam que Elis extravasasse os “padrões” na interpretação de algumas músicas brasileiras. Mas, normalmente, agradava a todos os seus fãs e era isso que realmente importava.
Elis na bossa, Elis com opinião
“Cantar, para mim, é sacerdócio. O resto é o resto”.
Na década de 60, a Bossa Nova tradicional se transformava e virava MPB.
Em 1960, os festivais de música começaram a fazer sucesso, vindo a se destacar e sendo transmitidos pela TV Record. Revelou grandes artistas, até então desconhecidos pelo povo, e ao mesmo tempo deu ênfase aos importantes e nomeados cantores a compositores desta época.
Os anos entre 1966 e 1968 foram considerados “A era de ouro dos festivais”. Os principais foram o Festival de Música Popular Brasileira da TV Record e o Festival Internacional da Canção, o FIC. Esses festivais sacudiam o Brasil anualmente e levavam multidões aos auditórios e ginásios, criando uma verdadeira febre.
Nesse período, MPB revelou grandes compositores e intérpretes através de tais festivais de música, apresentando cada vez mais novos artistas.
Essas músicas eram uma resposta à política repressora de um governo ditador, usando palavras metafóricas presentes nas letras. Com a opressão de um governo ditador,o povo não podia se expressar livremente. A música foi um meio de comunicação muito utilizado para retratar essa opressão, expor a todos suas opiniões sobre tudo o que acontecia. Um instrumento de luta pela liberdade de opinião.

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